Somos um grupo de Cristãos a Caminho, mulheres e homens católicos com diversas origens, vivências, e experiências espirituais. ‘A caminho’ porque o apelo do papa Francisco à sinodalidade na Igreja católica nos impeliu a juntar e viver, coletivamente, os desafios de um novo tempo de esperança, participação e abertura.
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Com incredulidade, lemos o mais recente documento entregue ao Papa neste Advento pelo presidente da Comissão de Estudo sobre o Diaconado Feminino. Nesse documento foram votadas várias proposições apresentadas pelos membros da Comissão, a mais absurda das quais, que granjeou (pasme-se!) cinco votos em dez na última sessão, afirmava que a “masculinidade de Cristo” levava a concluir que a “masculinidade daqueles que recebem a Ordem não é acidental, mas parte integrante da identidade sacramental, preservando a ordem divina da salvação em Cristo”. Acrescentaram os promotores desta proposição que fazer o contrário conduziria, inclusive, a uma ruptura no significado da salvação.
O documento caracteriza-se por este tipo de linguagem hermética e imprecisa que sustenta as suas principais conclusões, todas geradoras de humilhação e perplexidade.
Primeiro, a exclusão das mulheres do sacramento da ordem. No que já se tornou em certos meios um ritual repetitivo, ignora-se décadas de investigação teológica, nomeadamente por parte de mulheres e, para evitar cismas, defende-se mais e mais “cautela prudencial”, mais estudo e aprofundamento, para evitar cismas, mesmo empurrando para debaixo do tapete os princípios da justiça e a igualdade entre batizados.
Não basta espiritualidade
Segundo, a reafirmação do não ao diaconado das mulheres. Não basta espiritualidade, vocação, empenho ou experiência pastoral; as mulheres não são biologicamente iguais aos homens e essa diferença é transformada numa inferioridade existencial e tornada numa condição impeditiva do acesso ao diaconado.
Consideramos, pois, que o relatório é substantivamente medíocre e retrógrado, chocando de frente contra o tempo e dinâmica sinodal que se tenta desenvolver na Igreja. É humilhante para as mulheres e os cristãos em geral, sustenta-se da pior teologia e de maus princípios humanos. Não imaginamos pior. Na verdade, o documento defende argumentos teológicos falsos e revela medo.
Revela medo de que o Espírito Santo conduza a Sua Igreja e a interpele com os desafios criativos da procura de igualdade e de relações justas entre homens e mulheres, medo dos Evangelhos, que proclamam a inalienável condição de liberdade de cada ser humano e a universalidade da salvação de todos os batizados; e medo de que a hierarquia eclesiástica perca o poder de que goza, através do qual ergue muros e impõe exclusões e discriminação.
Há um medo das mulheres, essas ‘outras’ que tão flagrantemente o poder clerical masculino desconhece, humilha e discrimina. As mulheres trazem no seu corpo os segredos da vida, mas são, também, portadoras de milénios de história de trabalho lado a lado com os homens, de cuidado dos outros, de corajosa liderança em tantos momentos cruciais, de testemunhos de fé fundadores do modo como hoje milhões de homens, mulheres e crianças entendem a sua relação com Deus. Uma Igreja sem mulheres ordenadas é uma Igreja mutilada e incompleta. Sem elas não se viverá a reconfiguração da figura e do papel do clero de que tanto necessita a nossa Igreja. A ausência da memória de mulheres ordenadas já empobrece a tradição da Igreja há demasiados séculos.
Vemos que a Igreja continua a ser uma fortaleza estruturalmente patriarcal, fechada sobre si mesma e avessa ao “espírito do tempo”. O Papa Francisco classificou o clericalismo como um dos piores pecados da Igreja; ora o texto que nos chegou às mãos constitui uma perfeita e triste ilustração desse facto.
É tempo de a Igreja católica de que fazemos parte reconhecer que as mulheres podem representar plenamente Cristo. Essa é a nossa Esperança firme, e sabemos que mais tarde ou mais cedo, assim será. Por isso, mais vale cedo que tarde, e este deve ser o tempo de se darem passos decididos nesse sentido.
Alfreda Ferreira da Fonseca, do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais
Ana Nunes de Almeida, Paróquia de São Miguel, Queijas
Ângela Barreto Xavier, Comunidade da Capela do Rato
Cecília Vaz Pinto, Comunidade da Capela do Rato
Eduarda Ribeiro, da Fundação Betânia,
João Luís Fontes, da REDE Cuidar da Casa Comum
Jorge Wemans, Paróquia de Santa Isabel
Lisete Fradique, núcleo português de Nós Somos Igreja
Margarida Pereira-Muller, núcleo português de Nós Somos Igreja
Ir. Maria Julieta, rscm
Miguel Veiga, Comunidade da Capela do Hospital de Santa Marta
Nuno Franco Caiado, Paróquia de Santa Isabel
Paula Madeira, da Fundação Betânia
Rita Veiga, Comunidade da Capela do Hospital de Santa Marta
Teresa Vasconcelos, Movimento do Graal